
Não procuro em teu olhos caminhos para desnudar teus secretos pensamentos; eles são teus e, como tal, intransferíveis, de absoluta inexigibilidade por quem quer que seja. Nem mesmo o amor é chave suficiente que legitime a exigência de abertura para o que te é tão caro. Portanto, os segredos teus devem ficar contigo, e talvez a maior prova de amor que te possa dispensar seja mesmo deixar-te livre para guardá-los até que tenhas vontade de compartilhá-los, no todo ou em parte ou mesmo nada. Suspeito mesmo que nunca seja necessário os revelar, e o amor em nada será afetado, ainda que pareça paradoxal dizer-te que te amo mesmo que não te conheça por completo. E se amo mesmo assim, é o que basta!
Quanto a mim, não guardo tantos segredos quanto possa parecer. Talvez nem mesmo os tenha, ou, quem sabe, nem mesmo eu saiba que existam. Sim, é possível sermos o que não sabemos ser ou, dito de outra forma, acreditarmos sermos o que em realidade não somos - pelo menos na exata dimensão em que pensamos ter ciência -, além do que não deve ser em nada incomum perder-se em tantos papéis que desempenhamos quase que automaticamente em função de respostas que nos são exigidas. De qualquer forma, se amamos alguém, mesmo que na incompletude do que transparece, do que é percebível, que seja assim enquanto suficiente. E se um dia não mais for, não será pela parte oculta. Ao contrário, a revelação é que pode complicar tudo.