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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Beijos de chumbo na terra da liberdade.

Apenas algumas mãos descobertas dos encardidos lençóis em plena avenida, e um bando de mórbidos pares de olhos fumegantes de mortos-vivos silenciosamente aplaudindo, com suas palmas de aço, o resultado da cena protagonizada por mais um maluco-fascistóide qualquer e sua pistola 9mm com o cano ainda quente pelos disparos em seqüência até a última bala do pente. Pronto! Alguém mais resolveu por conta própria fechar as cortinas de outros. O eterno fascínio pela solução final, sem chance de defesa ou contraponto. Simples assim. Não, não digo que todos o convidariam para um jantar em família; talvez preferissem deixá-lo educando suas crianças durante as férias de verão. Sabem como é, um bom norte-americano precisa desde cedo aprender a atirar para defender-se dos inimigos que julgam ter e ser um bom republicano temente ao deus que acreditam tê-los ungido como o "povo escolhido". Aliás, às crianças criadas sob este manto de medo só são permitidos solilóquios com seus amiguinhos imaginários na primeira infância; tempos felizes que precedem a fábrica de inimigos, imáginários ou não, que os acompanhará pelo resto de seus dias. Um fenômeno coletivo, muito antes de ser algo individualmente construído. Na raiz da formação deste imaginário coletivo encontra-se a história dos EUA que foi desvelada assim, sempre com a contraposição a algum mal que causasse temor , ao que deveriam responder com o extermínio. Nesta dança macabra, sem que fossem convidados com um mínimo de gentileza, entraram indígenas, inglêses, mexicanos, negros, comunistas, árabes e, para deixar claro que o inimigo pode estar cortando a grama do jardim ao lado, vez ou outra fazem alguns presidentes entrarem para a história cheirando pólvora. Mas neste último caso, invariavelmente os escolhidos são políticos de matizes menos reacionárias, comparando-se com o que (não)pensa o repúblicano-cristão médio. E dê-lhe solução a bala! Nesta lógica, Mark Chapman achava John Lennon hipócrita. O que fazer? Assassiná-lo, é óbvio. Ato isolado de um maluco ou apenas mais alguém seguindo a linha de pensamento do estreito leque de opções para solucionar impasses? Os constantes massacres em escolas parecem seguir a mesma lógica.
E assim, contraditóriamente, e forçando um pouco a barra, o fascismo - aqui entendido como solução de força - foi e continua seduzindo grande parte da população na "terra da liberdade", pois lhes parece ser perfeitamente democrático substituir a aceitação do contraditório e do diferente por estalar de beijos de chumbo. Quem será o próximo?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Dia Internacional da Tolerância: que bom seria se...

Sendo o Dia Internacional da Tolerância, abri os jornais de hoje esperando ver as seguintes manchetes:
- Talibã curte férias com esposa em praia de nudismo;
- Republicanos aglutinam esforços para construção de busto em homenagem a Fidel Castro;
- Muçulmanos, católicos e judeus abandonam Jerusalém e vão a festa rave juntos;
- PT e PSDB abandonam seus aliados e formam nova coalisão;
- João Pedro Stédile e Ronaldo Caiado combinam natal em família;
- Indústria bélica norte-americana fecha as portas e patrocina novo woodstock, revitalizando valores da contracultura;
- George W. Bush aceita ser alfabetizado por Tiririca;
- Movimento Tradicionalista Gaúcho divulga manifesto em favor do casamento gay e da alimentação vegetariana;
- Membros da Ku Klux Klan transferem sede do movimento para a África, visando aumentar comunhão étnica;
- Latifundiários paraenses desarmam seus jagunços trocando armas por caixinhas de música;
- Skinheads, reunidos numa sinagoga, confirmam participação na próxima Parada Gay, ao mesmo tempo em que lançam "luta" pela transformação do Dia da Consciência Negra em Semana da Consciência Negra;
- Banqueiros brasileiros abrem mão de seu quinhão na dívida interna brasileira em prol de políticas públicas para erradicação da pobreza;
- Negros calçando chinelos deixam de ser seguidos por seguranças de shoping's.
- ONU delibera sobre fim de arsenais nucleares: "Se todos não podem ter, ninguém os terá!"
- Mulheres em postos de chefia abandonam "modo masculino" de chefiar e implantam a doçura;
- Anti-tabagistas radicais refletem sobre seu nem sempre saudável estilo de vida deixando, desta forma, a histeria de lado;
- Na praia de Pinhal, veranistas deixam de "socializar" seus funk's, house's e pagodes, baixando o volume de seus potentes aparelhos para que todos pudessem ouvir Beethoven vindo de um automóvel que por ali passava;
- Diretores de empresas abandonam ternos e gravatas e passam a trabalhar com camisetas, bermudas e bonés, abandonando as distinções de classe;
- Gisele Bünchen declara: "Magreza e beleza não são sinônimos!" E vai ao mercado comprar caixas e mais caixas de leite condensado.
- Sobre o último Gre-nal, colorados declaram: "foi penalti pro Grêmio!" gremistas discordam: "nosso jogador estava impedido!"
- Rede Globo anuncia cobertura eqüidistante do próximo pleito eleitoral;
- Papa Bento XVI anuncia apoio a Frei Leonardo Boff à sua sucessão;
- Católicos e protestantes irlandeses abandonam discórdias seculares e unem-se em torno da doutrina do Santo Daime;
- Gentileza no trânsito torna tecnologia de controladores de velocidade sem utilidade e derruba estatísticas de acidentes;
- Marido traído diz que ama esposa e que tudo continuará como antes. Ops, aí já é tolerância demais! Ou não?

terça-feira, 14 de setembro de 2010


Tortura - óleo s/eucatex - 40 x 30

Fico perplexo quando algum conhecido viaja para o exterior e volta deitando falação a respeito do país visitado. Claro, refiro-me àquelas pessoas que, em tom quase professoral, fazem relatos como se a breve incursão fosse suficiente para que dominassem a história, as relações sociais, de poder, de dominação, enfim, as peculiaridades que conformam e fazem aquele país ser o que é. Mas, é claro, as pessoas não o fazem por mal. Elas acreditam que seus parcos dados sejam suficientes. Mesmo assim, fico com vontade de pular fora na primeira oportunidade.
Ora, essas mesmas pessoas via de regra mal conseguem ultrapassar o senso comum a respeito do local onde vivem e se acham capacitadas e instrumentalizadas para explicar o que se passa em outros países.
Por que estou falando tudo isso? Por uma razão muito singela: até mesmo esse tipo de pessoa sabe que estamos em meio a um processo eleitoral, embora nem sempre tenha claro o que está em jogo, que forças políticas, econômicas e sociais estão por trás desta ou daquela candidatura, que visões de mundo as explicam e patatí, patatá.

A questão é que já recebi um sem número de e-mails “acusando” a candidata Dilma Rousseff pelo seu passado de luta contra a ditadura militar. Acreditem, isto está sendo usado com peça desabonatória. Mais ainda, com alguma repercussão negativa para ela, ou seja, há quem veja nisso uma razão para não votar nela. Ora, qualquer um que habite este país deveria saber, no mínimo, que houve uma ditadura militar que durante vinte anos submeteu o país às trevas, torturando, assassinando, caçando direitos políticos, enfim, fechando todos os canais de interlocução não só da sociedade para com o Estado mas com ela própria. Pois foi neste ambiente que pessoas – enquanto a maioria alienadamente esfregava suas gordas bundas no sofá comprado no crediário, na esteira do “milagre brasileiro” – resolveram abrir mão de suas vidas ao decidirem entrar para a clandestinidade para enfrentar os sanguinários coturnos e todo o seu gigantesco e sem limites aparato repressivo. E, pior, maioria esta que, além de sequer saber o que se passava, vez ou outra até delatava os que se atiravam de peito aberto contra os regimes discricionários. Nem se trata de discutir se foi ou não a opção adequada ao momento – embora opções fossem praticamente inexistentes -, mas sim de louvar o ato de entrega de si pela maioria.
Mas a despeito deste desconhecimento e/ou falta de memória histórica, essas pessoas lutadoras existiram não só no Brasil, como na Argentina, no Uruguai, no Chile, enfim, em praticamente toda a América Latina que, à época, era banhada pelo verde-oliva que transformava opositores (ou quem achavam que fosse) em vermelho-sangue.
É justamente por isso que me causa estranheza quando estes idealistas que conseguiram sobreviver à tortura, a uma vida miseravelmente clandestina são condenados por parte da opinião pública a despeito de terem se doado por ideais coletivos e tendo enfrentado todos aqueles canalhas armados que vicejaram como inço naquele período.
Ah, mas houve assaltos a bancos! Ora, essas ações não eram voltadas ao enriquecimento pessoal, mas sim como fonte de financiamento das atividades que julgavam necessárias à libertação do país. Se a estratégia era certa, ou não, é outra história. Agora, convenhamos, alguém está com peninha dos bancos!? Poupem-me disso!
De qualquer forma, é justamente este desprendimento que me encantou (e segue como tal) durante minha juventude, razão pela qual serei eternamente grato aos que lutaram contra todos os regimes autoritários da época. Foram, são e sempre serão meus heróis. Aliás, acho que a humanidade tem uma dívida histórica para com todos eles que, mundo afora, lutaram contra forças militares que investiram barbaramente sobre seus próprios povos.
Agora, tem uma coisa: nem todos os que lutaram continuam na mesma trincheira. Obviamente há os que mudaram de lado e hoje defendem o capital. Destes posso até discordar no que se refere às suas posições atuais, o que não apaga os méritos de outrora. Querem um exemplo? Fernando Gabeira. Ele sofreu todas as agruras possíveis, comuns aos que ousaram heroicamente enfrentar ditadores, e hoje apóia a candidatura Serra que, como sabemos, está intimamente ligada ao histórico jeito de governar de nossas elites. Isto apaga seus méritos passados? Acho que não, embora discorde completamente de suas posições atuais.

Portanto, não passem o ridículo de enviarem-me e-mails utilizando esta linha de argumentação, pois jamais deixarei de votar em alguém por ter sido um lutador contra a ditadura militar. Ao contrário, este é um ponto positivo, embora não suficiente.
E é por isso que faço esta brevíssima recuperação histórica pois, ao que parece, há quem não conheça o país que habita e, por isso mesmo, são poucos exigentes quanto aos argumentos para votar ou deixar de votar neste ou naquele. Mas acham que podem compreender, conhecer e explicar outros países onde passaram suas férias.

E como imagens muitas vezes são mais eloqüentes do que palavras, preparei uma listinha com alguns filmes que retratam estes períodos de ditaduras militares no cone sul:

Brasil:
- Pra frente, Brasil –
- Lamarca –
- Batismo de sangue –
- Zuzu Angel –
- Araguaya – Conspiração do silêncio –
- Cabra marcado para morrer –
- Jango (o filme) –
- O que é isso, companheiro? –

Chile:
- Missing – Desaparecido, um grande mistério
- Chove sobre Santiago

Uruguai
- Estado de sítio

El Salvador:
- Salvador: martírio de um povo
- Vocês inocentes

- Z (Grécia)

Argentina:
- La historia oficial
- Las madres de la Plaza de Mayo
- Los pasos perdidos
- La noche de los lápices


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nem Deus nem o diabo entendem de casamento!



Portal - OST - 60 x 70

Numa de suas tantas e geniais crônicas (Até que a morte...) Rubem Alves narra uma conversa com o diabo. Há quem diga ter sido fictícia, mas como já vi muito bluesman cedendo sua alma ao demo em troca de performances inesquecíveis, de pronto acreditei que de fato ocorrera.
Segundo Ruben, o teor do colóquio deu-se em torno da origem central da discordância entre Deus e o diabo: qual o laço que manteria unidos homem e mulher para todo o sempre, amém.
Deus teria defendido a tese de que o amor seria a fonte que manteria a coesão ad eternum. Já o diabo teria retrucado dizendo que o amor é “cola fraca” e, portanto, transitório pois nele vive o maior inimigo da estabilidade: a liberdade. E sendo ela presente, a qualquer momento um amor enfraquecido poderia ser trocado pela ilusão de um novo amor. Já o ódio, segundo o diabo, traz consigo um conteúdo de permanência pois dele emana a negação da possibilidade de deixar o outro buscar a felicidade junto a outros amores, pelo que cada qual preferiria manter a união mesmo que a custo da própria felicidade - o que mais importaria seria manter a infelicidade do outro.

Embora tenha rejeitado parte da tese Dele, rebelei-me sobretudo contra a diabólica tese do ódio. Resolvi tomar uma atitude. Liguei para o secretário do diabo e pedi para marcar uma audiência.
- Alô?!
- “Secretário Mall Huff falando...”
- Gostaria de marcar uma audiência com o diabo.
- “Impossível! Nesta época de eleição o homem está muito ocupado”, disse-me Mall
- Mas estou com um pouco de pressa. É importante, tentei argumentar.
- “Neste caso, posso até te passar na frente, mas...”
- Sem mas, Sr. Mall Huff. Sendo assim, eu espero. Marca para quando for possível.
Longos meses se passaram até o dia do esperado encontro com o famigerado.
No dia e hora marcados, lá estava eu. O secretário anunciou-me. Entrei na imensa sala, assustadoramente forrada com um carpete vermelho até o teto, inclusive. Sentei-me à frente do dele. Ao contrário do que descrevera Rubem Alves, achei o diabo um tanto quanto andrógeno. Sei não, pensei. Nervoso, acendi um cigarro.
- “Apague!”, ordenou-me com a voz empostada, tentando me colocar na defensiva.
- Mas até o senhor...?
- “Sim, até eu! Não quero cheiro de fumaça por aqui. E senhor é Ele, disse-me, apontando o dedo para cima.”
Constrangido, apaguei o cigarro na saliva e guardei-o no bolso. Bom, mas eu vim aqui para...
- “Eu sei por quê você veio. Não pense que é só Ele que sabe tudo o que se passa. Eu também sou onipresente e onisciente.”
- Pois então está bem. Como tu bem sabes, nego-me a aceitar que o ódio seja o amálgama que sedimenta as relações entre homens e mulheres. Se assim fosse, porque razão se casaria?
- “Pela ilusão do amor e por sexo fácil e seguro.”
- Não creio, sexo nunca foi tão acessível. E para segurança existem os preservativos, contra-argumentei.

- “Tu estás esquecendo que quando homens e mulheres casam, normalmente estão embriagados pela paixão, que os cega.”
- Discordo, disse-lhe, pois até chegarem a ponto de decidirem casar-se, a paixão normalmente já foi ultrapassada pelo que chamamos amor. E o amor, sabemos, é a superação do vôo cego a que outrora estavam submetidos os apaixonados. E assim, a razão torna a fazer parte de seus horizontes.
- “Tudo bem, mas até agora tu ainda não provaste que não é o ódio que torna perene os relacionamentos.”
- Ora, seu demônio, parece-me óbvio que o homem é um ser histórico e, como tal, é naturalmente um observador dos fatos, mesmo que vez ou outra repita erros cometidos. Entretanto, este tipo de recorrências normalmente diz respeito a fatos que envolvem um grande número de pessoas.
- “Não entendi”, disse o diabo.
- Vou te dar um exemplo: por acaso não é comum vermos políticos corruptos serem sucessivamente reeleitos?
- “Sim, mas estes não só são meus protegidos como sempre dou uma forcinha extra quando preciso”, argumentou com indisfarçável garbo.
- Tu estás completamente enganado, diabinho. As pessoas o fazem ou por distração, ou por falta de informação, ou por indução mesmo, ou seja, não observam com o esmero que devotam a casos que lhes parece dizer diretamente respeito – embora eu entenda que a política diz tanto respeito às pessoas quanto o casamento.
- “Está bem, mas onde entra o casamento e o ódio?”
- Calma, meu sulfúrico rapaz (senti que estava dando as cartas e, por isso, cresci na parada). O que quero lhe dizer é que grande parte das pessoas aprende com as experiências dos outros pelo método da observação pura e simples. Claro, às eleições nem todos dão o devido valor e, por isso, cometem erros. Já em relação ao casamento a coisa muda de figura. Qualquer um tem inúmeros exemplos à sua disposição, com fartos elementos a serem observados. Ora, sendo o casamento algo que diz respeito clara e diretamente a vida de todos – ou quase todos -, é natural que prestem maior atenção ao que ocorre nele nos exemplos mais próximos. Correto?
- “Sim, mas e daí?”, murmurou o maléfico.
- Simples: se o ódio fosse realmente a razão pela qual os casais permanecem juntos, seus efeitos, sendo visíveis, seriam facilmente observáveis. Quem, então, casaria estando ciente do profundo mal-estar que um tipo de relação desta provoca? Tu bem sabes que poucos o fariam. E nem me venha com a idéia de que os sádicos se casariam. Eles até existem, mas são poucos. E vocês não brigaram por poucos, não é?
- “Agora tu me pegaste. Mas então tu achas que Deus está certo?”
- Bom, eu acho que Ele chegou mais perto. Os casais se juntam por uma série de razões, entre as quais o amor é a motivação preponderante. E permanecem por ele ligados, embora também por outras questões, todas elas motivadas pelo prazer, ou seja, jamais pelo ódio pois deste apenas resulta sofrimento. Portanto, o ódio nem de longe guarda qualquer relação com a perenidade ou não do casamento. Ao contrário, ele seria sua ruína.
- “É, mas o número de divórcios só está aumentando...”
- Pois é justamente o que dá mais força ao meu ponto de vista.
- “Não entendi de novo.”
- Olha só: como as mulheres adquiriram sua independência financeira ao entrarem definitivamente no mercado de trabalho, passaram a separar-se quando o ódio começa a fazer parte da relação. E os homens, por sua vez, passaram a fazer o mesmo pois sentem menos culpa ao irem embora. E assim ambos vão em busca de novos amores, ou seja, ninguém mais se submete a aturar o outro quando a coisa não vai bem. Entendeu?
- “Sim, mas nosso plano era de que os casais deveriam ficar juntos até que a morte os separasse... E quanto a isso Ele e eu concordávamos plenamente.”
- Pois é justamente aí que vocês se atrapalharam e acabaram brigando por nada.
- “Olha o respeito!”
- Eu sei que é duro aceitar isso, mas a verdade é que vocês brigaram por algo absolutamente sem sentido. A questão é que tu e Deus estão por aí desde sempre, então ficam imaginando coisas para a vida toda das pessoas a partir das suas noções de tempo. Ora, para nós uma vida inteira só não é muito quando o casamento vai bem; ao contrário, se vai mal, a perenidade se torna intolerável.
Então, se aceitas um conselho, procure Deus e humildemente proponha a Ele o que nós mortais vez ou outra fazemos: discutam a relação. Quem sabe vocês não chegam a conclusão de que está na hora de vocês pararem com essas picuinhas. Afinal, para mim parece claro: vocês não entendem nada de casamentos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Não-fumantes X fumantes: é preciso ser assim?

Uma verdadeira onda de histeria coletiva gradativamente tem tomado conta do Brasil – e se trata de um fenômeno que não se vê tanto na Europa quanto nos demais países latino-americanos. Na Argentina e em Portugal, por exemplo, as relações são muitíssimo mais civilizadas. Falo da intolerância crescente de parte de uma parcela significativa dos não-fumantes em relação aos fumantes.
Aparentemente impulsionada pela rejeição ao tabaco em face da sua indiscutível nocividade, mas que, se examinarmos as atitudes práticas das pessoas não-fumantes em relação a sua própria saúde, fica bastante claro que este apartheid guarda motivações nem sempre tão claras quanto parecem. Talvez seja movido por uma intolerância oriunda de possíveis traços autoritários de personalidade – mesmo que inconscientes - do que qualquer outra real motivação. Mas isto é apenas uma hipótese. De qualquer forma, este apartheid fica tão mais claro quanto cada vez se torna mais comum verificar que aos fumantes sequer é concedida a possibilidade de aplacar seus sofrimentos, resultantes da abstinência da nicotina e do alcatrão, em locais separados ou mesmo em prosaicas janelas. Os anti-fumo radicais parecem não se sensibilizar, simplesmente expelem os “fumantes-canalhas” dos prédios comerciais, pouco interessando se faz frio intenso, chuva ou calor saárico. Fodam-se, parece ser a mensagem; quem mandou serem viciados! Que fumem na rua! Sei não, mas não me causaria espécie se num futuro próximo os fumantes venham a ser apedrejados em praça pública, ao melhor estilo da República Islâmica do Irã. Falta apenas a primeira pedra... E ao que parece, mãos não faltarão.
Mas eu falava da inconsistência da afirmação da razão para a segregação em função da preocupação com a saúde que os fumantes passivos dizem ter.
Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, 48% da população é obesa (no Brasil são 46%) em função dos péssimos hábitos alimentares e do sedentarismo contumaz, o que revela que a preocupação com a saúde não é tão evidente assim. E neste contexto, é bastante comum sedentários ostentando imensas quantidades de gordura abdominal – aquele tipo que se desloca facilmente às artérias, obstruindo-as – dando discursos ferozes contra os fumantes, do alto de uma condição moral que não tem; ou, ainda, hipertensos - beberrões confessos – cerrando fileiras ao lado dos histérico-xiitas. Os mais ferozes críticos dos fumantes que conheço são exatamente assim: desenvolvem hábitos/estilos de vida nada saudáveis, mas mesmo assim não se furtam em censurar quem fuma, radicalizando as relações. Obviamente o rabo dos outros é mais colorido, é claro. Aliás, essa é uma das características que em nada engrandece as pessoas: ausência de auto-crítica que, quando conjugadas com a incapacidade de examinar as questões para além da superficialidade, resultam no que aí está.
Outro exemplo que demonstra que a preocupação com a saúde é uma falácia: no inverno passado, com o vírus H1N1 ceifando vidas a todo o momento no sul do país, era absolutamente comum encontrar andares inteiros de prédios comerciais hermeticamente fechados, sem uma frestinha sequer pela qual o ar pudesse ser trocado. Onde estava a preocupação com a saúde? Enfim, exemplos de atitudes incompatíveis com quem se diz preocupado com a saúde abundam. Mas enfim...
Quanto aos ex-fumantes – que hoje engrossam o coro dos histéricos-xiitas – cabe apenas uma breve observação: a sorte deles é que quando fumavam ninguém fez com eles algo remotamente parecido com o que eles hoje fazem com os atuais fumantes. E olha que em suas épocas fumava-se até em elevador. Mais estranho ainda, os não-fumantes da época pareciam realmente não se importar sequer com o cheiro. Hoje até em lugares ao ar livre é bastante comum ver pessoas recriminando fumantes. Ou seja, pegaram os fumantes para Cristo.
De qualquer forma, não pretendo ser louco o suficiente para defender a tese absurda de que se deva fumar. O cigarro é extremamente nocivo à saúde; que isso fique bem claro. O que chamo a atenção é de que os níveis de dependência que o cigarro impõem amarras dificilmente superáveis. Quem diz são os especialistas. Portanto, também é uma questão de um mínimo de humanidade que se administre as relações de forma mais civilizada. Alternativas existem. A barbárie não é a única, como parece ser.

Por fim, neste conexto de relações conflituosas - e forçando um pouco a barra- pode-se dizer que surgiram duas novas categorias sociais: fumantes e não-fumantes. Construindo-se, então, uma linha a partir destes dois tipos-ideais e colocando-os um em cada extremidade, teríamos algo mais ou menos assim: numa ponta os fumantes e, na outra, os não-fumantes, sendo que a aproximação maior de uma e outra extremidade determina o grau de intolerância quanto a possibilidade de convivência civilizada entre ambos. Então, por um lado temos os fumantes radicais, que não admitem qualquer forma de regulação quanto ao seu vício e, do outro, não-fumantes que, por sua extrema intolerância, chamarei de histérico-xiitas. O ponto zero, indica um maior grau de civilidade nas relações do conflito de interesses de ambas as partes.
Em que ponto da linha você se encontra?

I____________________________0___________________________I
Fumantes........................Civilização................Anti-fumantes radicais...................................................... histérico-xiitas

quinta-feira, 15 de julho de 2010

É o fim do casamento?



Univertango: OST 60 x 40

Há muito tempo as sociedades – sobretudo no ocidente - procuram de todas as formas frear os impulsos poligâmicos de seus membros - e antes que a confusão se estabeleça, por membros, entenda-se pessoas. E este ímpeto conservador tanto é verdadeiro que, para reforçar as uniões, deixá-las quase que indestrutíveis, desde há muito são realizadas em duas frentes: o casamento perante o onipotente, onisciente e onipresente Deus - por estas bandas representado por uma infinidade de prepostos de todos os tipos que, em comum, sempre deixam claro que a união tem que valer até a morte - e, por outro lado, pela letra fria de um aparato judicial que tudo faz para torná-las quase indissolúveis. Somado a tudo isso, um terceiro e simbólico elemento que serve como alerta a possíveis pretendentes: um aro de metal enfiado no dedo anular da mão esquerda. E a tal aliança é um artifício diabólico: basta que o sujeito engorde dois gramas para que sua condição civil fique marcada ad eternun. Se bem que conheci um sujeito que, para não correr este risco, usava uma pequena tira de feltro por baixo da aliança. Questionado pela esposa, dizia: “amorzinho, é para proteger a inscrição de nossos nomes da ação do ácido úrico”. E ela docemente acreditava; ou fazia de conta.
Mas o tempo passou e, pelo menos no que se refere à união civil, as amarras foram sendo afrouxadas. No Brasil, em 1977, depois de um embate tenebroso, o divórcio virou lei. Mas uma série de condicionantes ainda permaneceu fazendo parte do cenário, dificultando o desfecho. Pois agora, 33 anos depois, o divórcio passou a ser quase que instantâneo. Novamente os setores mais conservadores bradaram: “é o fim do casamento e, por extensão, da família!” Não acredito nisso! Além do que é cem por cento certo que o divórcio está umbilicalmente ligado ao casamento. Portanto, o número de casamentos deve mesmo aumentar.
De qualquer forma o que tem que ficar claro é que tudo isso não passa de subterfúgios artificiais – absolutamente ineficazes - para manter o “sagrado” matrimônio.
Penso que as pessoas deveriam fazer como meu camarada Antônio: após dezoito casamentos – um deles com a Elizabeth Taylor – criou o que chama de os dez mandamentos de Antônio para seu casamento não afundar:

1) Condicionar os ouvidos a funcionarem no modo stéreo: o da direita para ouvir as reclamações e o esquerdo para, concomitantemente, prestar atenção na narração do jogo de futebol;

2) Sempre passear de mãos dadas: a esposa voltada para o lado de fora da calçada, de forma a dificultar o acesso visual às vitrines e, por conseqüência, das compras;

3) Configurar a agenda do celular para que, em hipótese alguma, sejam esquecidas datas fundamentais: aniversário de namoro, do primeiro beijo, da primeira vez, de noivado, de casamento, dela própria, da sogra e do gato Ron-ron;
4) Antes de sair para o trabalho, disfarçadamente fotografá-la para, ao retornar poder dar uma conferidinha, tornando viável identificar aquela mecha de cabelos que ela resolveu pentear para o outro lado;

5) Jamais comprar roupas que fiquem apertadas, tampouco largas demais. Qualquer menção quanto a alterações de peso pode despertar seus mais selvagens instintos;

6) Nunca, mas nunca mesmo, chamá-la de mãe.

7) Não cochilar durante as apresentações de balé daquele obscuro grupo da periferia de São Petersburgo;

8) Dormir em camas separadas em épocas de T.P.M. Ela em sua confortável king-size e você na casa de praia;

9) Dar total apoio quando ela decidir fazer cursos de biscuit, reike, bijuterias, maquiagem, etc.; e

10) Não compará-la à sua mãe.

O Antônio garantiu que não vai precisar casar-se novamente. Sei não, aposto que a esposa dele deve ter sua própria relação de mandamentos. Pelo sim, pelo não, siga, adapte, construa seus próprios mandamentos. E se não der resultado, divorcie-se e case novamente; uma hora vai dar certo. Seja lá o que isto signifique. E boa sorte!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Bicho-urbano.

Pinheiros dançantes - OST - 50 x 70


Não é preciso choques-elétricos, pau-de-arara ou agulhas sob as unhas. Confesso sem a menor resistência: não acho nada divertido acampar!Afora experiências de minha infância quando, vez ou outra, passava o fim de semana acampando com meu pai e seus amigos em suas pescarias, uma única vez cedi às pressões para me embrenhar por matas munido tão somente pelo dito essencial: panela, talheres, prato, copo, colchonete, cobertor, alguma roupa, bebida e uma oca de plástico.
Não sei quem, mas na ocasião me convenceram de que isto era o suficiente. Não era!
Claro, fui traído por aquele olhar para o passado onde tudo, ou quase tudo, parece-nos melhor do que realmente fôra. Querem um exemplo? Hoje é até engraçado lembrar que, quando criança, saía de casa para ir ao dentista, mas não ia. Ficava dando banda esperando o tempo passar para, no momento certo, voltar para casa e ir fazer qualquer coisa. Entretanto, na época, me aterrorizava a certeza de que mais cedo ou mais tarde o Dr. Dazir perguntaria à mãe o porque de eu nunca mais ter aparecido no consultório. Pois é justamente essa sensação de pavor que a memória deleta (ou abranda), deixando apenas a graça dos meus dribles inconseqüentes. Talvez isso explique aquela sensação que às vezes temos de que “era feliz e não sabia”: a memória parece ter uma lógica de funcionamento que suaviza lembranças desagradáveis. Claro que não se trata de traumas que ficam escondidinhos em algum canto, mas sim de pequenos dissabores. Tão somente isso.
É precisamente por isso que, dos acampamentos de outrora, restaram as impressões de que tudo era uma festa.
Hoje, até a lembrança de quando tive que correr até a exaustão para fugir de uma cobra que dormia sob o sol parece divertido, mesmo tendo ficado absolutamente aterrorizado e completamente esfolado pela quantidade imensa de espinhos que, sem pedir licença, teimavam me agarrar em minha tresloucada e incerta rota de fuga. Ou mesmo aquelas intermináveis horas em que ficava pacientemente esperando a rolha afundar para, em seguida, descobrir que o peixe que eu nunca fisgara – e que provavelmente deveria estar tirando onda da minha cara com a barriga cheia de minhas iscas -, parece encantador. Foram justamente estas adocicadas lembranças que me ocorreram quando aceitei o convite. Mas a realidade dos fatos deu-me seu recado e me deixou a lição:

Quem precisa do cheiro do mato? Prefiro lençóis cheirando amaciante, travesseiros personalizadamente amassados sobre um colchão com covas modeladas pelas minhas exatas medidas, ao contrário do colchonete – que via de regra é escravizado pelas manias e reentrâncias do solo sobre o qual é depositado –, pelo que acampados acordam como se tivessem passado a noite no porta-malas de um fusca. Além do mais, o que pode ter de divertido passar a noite num iglu sintético, trancafiado por um zíper para fugir dos milhões de mosquitos e, de quebra, passar a noite escutando o caminhar de peludas aranhas caranguejeiras sobre estalantes folhas secas? Nada! Quando muito, terror. A natureza é muito bacaninha na televisão: não tem cheiro ruim, mosquitos, insetos, água de potabilidade discutível, cobras traiçoeiras...e imensas, espinhosas e pedregosas trilhas para se chegar exausto a esses “paraísos naturais”.
Por essas e outras, nesta altura do campeonato, me declaro fora do jogo: acampar mais me parece um exercício de autoimolação ou, quando muito, possibilidade de deitar falação acerca de discutíveis glórias a respeito de privações suportadas nessas aventuras, menos bucólicas do que aparentam. Talvez tenha algo a ver com o sofrimento como agente purificador, tão presente no inconsciente coletivo desta América católica.
Claro que estou exagerando. Mas de qualquer forma: eu fora! Dispenso o céu por um prazerzinho qualquer. E adoro ter a disposição todo o conforto que me for possível – não confundir com luxo - mesmo que nem desfrute de todos. E podem me chamar de bicho-urbano ou guri-de-apartamento. Sou mesmo!
Mas para quem, mesmo assim, curte acampar, podem contar comigo: torcerei imensamente para que, ao menos, não chova.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Borboleta do asfalto.




Mal começou a semana e me deparo com teu desconhecido corpo, inerte, ainda quente, estendido no asfalto atrapalhando o tráfego e sob curiosos e mórbidos olhares vampiros. Quem te sugou o sopro da vida não está ali; restaram apenas as marcas dos pneus, testemunhas da partida, da tua partida, do ponto de chegada da tua vida. Teus olhos cristalizaram o desespero, o desamparo perante o inevitável; rigidamente abertos, não piscam com a chuva que chora inundando-os, antecipando lamentos que ainda virão, e virão por ti. Porque não olhaste para o lado? Quem sabe o que se passava em teus pensamentos...
Talvez tua última noite tenha sido proveitosa, inundada por planos, com promessas de amor, com sonhos de cercas brancas com roseiras espalhadas pelo gramado esmeralda, com visões do amor que chega cansado e se alivia em teus braços, com ternos beijos na testa de filhos que agora jazem sem terem sido - como sementes jogadas no estéril chão de eucalipto.
Mas os planos são assim mesmo, brincadeiras para driblar um futuro incerto ou apenas para tornarem menos insuportável nossa existência - tão encharcada pelo mal-estar que toma conta da humanidade - ou, ainda, para simplesmente serem desmentidos pelo calendário que avança subtraindo porvir e aumentando o que já não é mais possibilidade.
Porém, talvez tua noite não tenha tido nada de especial; quem sabe foi apenas mais uma solitariamente dividida com a rotina comum a quem não se permite esperanças róseas, ao contrário, vive emoldurada tão somente por cinzas premências, testemunhas fiéis dos limites que a realidade impõe impedindo sonhos; assim como muros egoístas - privilegiados espectadores do sol que inviabilizam passar. Quem sabe, afinal, o que se passou?
De qualquer forma não há mais possibilidades; é inútil especular. Agora viraste borboleta do asfalto pelo sopro da morte que travou definitivamente teu vôo. E assim, tuas asas ali jazem, inertes e descoloridas, a demarcar mais uma cortina que se fechou para todo o sempre, amém.
Mas porque mesmo não olhaste para o lado?...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Um mais um igual a três.

O dia dos namorados aproxima-se com a mesma velocidade com que mulheres e homens convergem em seus costumes, antes tão diferentes. Explico melhor: o que outrora era inequivocamente típico de homens ou de mulheres, agora aparece como comum a ambos. E os exemplos são cada vez mais abundantes.
Em outros tempos, por exemplo, quando meu time levava um gol imediatamente eu bradava impropérios ao árbitro afirmando categoricamente que o cara estava impedido. Sem direito a contestação. E ponto final. Ato contínuo, minha mulher ficava ali tentando me consolar carinhosamente dizendo-me "segredos de liquidificador". Era tão bom que vez ou outra eu fingia haver impedimento até em cobrança de pênalti - e ela docemente acreditava. Mas dia desses meu time levou um gol e, como de costume, comecei a berrar: Impedimento! Impedimento! Ela esperou pacientemente e, quando me acalmei, suavemente me apunhalou: "Não estava!" Como assim? Claro que estava! "Não estava, pois na hora do lançamento havia dois jogadores adversários entre o jogador que recebeu a bola e a linha do gol”. Meu mundo caiu. Minha mulher não só fez a leitura correta do lance como sabia a regra do impedimento. E, pior ainda, explicou-me como se eu fosse um de seus alunos em pleno processo de alfabetização. Merda, além de acabar com a mordomia, foi-se embora minha superioridade futebolística - a regra do impedimento sempre fora o grande trunfo. Obviamente o fato era grave e exigia retaliação imediata. Fui ao banheiro e peguei um de seus inúmeros produtos de beleza e comecei a esfregar os cotovelos. Mas o que é isso, disse-me espantada. Nada, estou com os cotovelos ásperos e vou passar um creme. Algum problema? "Nenhum, amor, nenhum; só que você está passando rouge e seus cotovelos vão ficar vermelhos." Emburrado, troquei de canal e mirei num programa de fofocas - coisa de macho, é claro. Lá estava um apresentador - homem reconhecidamente fofoqueiro é mais uma das novidades - mostrando uma foto do David Beckhan, depilado, com as sobrancelhas feitas e vestindo a calcinha da esposa. Mas que mundo é esse!? Desisti da tv e fui para o computador. Não demorou muito para ela me pedir para baixar um disco.
Sim, amor. Qual? O da Ana Carolina, a trilha da novela das oito...? "Não, o do Motorhead!" Como assim do Motorhead!?
Pô, se ainda existe uma banda digna de ser chamada de "banda de rock" - heavy até os ossos - esta é o Motorhead. Não há nada mais ogro do que o vocalista Lemmy e suas verrugas amestradas. E tem mais, mulher alguma jamais foi vista em shows deles - sempre habitados por hordas de mamíferos bípedes simiiformes, exclusivamente do sexo masculino e trajando amarrotadas e mal-cheirosas camisetas pretas - uma cavalice total. Como ela poderia querer ouvir aquilo? Contrariado, mas obediente - mais uma característica dos novos tempos - baixei o disco.
Atordoado com tantas ocorrências, convidei-a para sair. Tirando uma breve discussão a respeito do itinerário - e ela estava certa, eu deveria ter dobrado à direita - seguimos em paz. Subitamente chamou-me a atenção um carro nervosamente dando-me sinal-de-luz. Facilitei a ultrapassagem mas não fiquei imune aos protestos - emoldurados por uma voz feminina - vociferados com toda a zanga. Como se não bastasse, mal o carro nos passou, pude ver uma mão estendida para fora da janela com o dedo médio em riste e um homem passando a mão na cabeça da motorista, como que tentando acalmá-la. Elas estão ficando tão neuróticas quanto nós, logo logo vão começar a enfartar precocemente, "pensei em voz alta”. O que você falou?, perguntou-me. Nada, benzinho, eu só pensei em te convidar para um cineminha. De repente a gente poderia ver uma comediazinha romântica com o Hugh Grant e a Julia Roberts... "Nem pensar! Já estou cheia de desses filmes adocicados; só vou se tiver algum filme com o Chuck Norris ou o Stallone! É isso ou nada!" Tudo bem, você é que manda, resignei-me. Mal nos acomodamos nas poltronas e três mulheres pediram licença para sentar-se na mesma fileira. Claro que minha mulher beliscou-me sugerindo que as havia dirigido olhares, digamos, antropofágicos. Como inocente - outra novidade - exasperei-me e tasquei: Olha aqui, uma antropóloga fez um estudo no qual ficou comprovado que 47% das mulheres cariocas já traíram seus parceiros, ou seja, já estão quase empatando com os homens. Então chega desse papinho de pobres inocentes traídas. Surpreendida pela minha indignação, virou-se para a tela e pôs-se a assistir o filme, que já começara. Satisfeito com minha pírrica vitória, encostei a cabeça na poltrona para cochilar - e teria conseguido não fosse a quantidade oceânica de tiros. Findo aquele libelo ideológico estadunidense - onde as soluções passam sempre pela iniciativa heróica individual em detrimento de ações coletivas - o bem, isto é, "eles", mais uma vez venceram os "malvados da hora”. Saímos do cinema e nos dirigimos ao estacionamento. Como que acusando o golpe do estudo da antropóloga, pareceu querer desafiar-me ao exigir a chave do carro. Entreguei-lhe, não sem antes murmurar: sair da vaga do estacionamento é fácil hehehe! "O que você falou?" Nada, amor. O filme estava ótimo, não...?
Enfim chegamos em casa, surpreendentemente ilesos. Atirei-me escandalosamente no sofá e comecei a tatear por suas reentrâncias à procura do melhor amigo de nós, homens: o controle-remoto. Sem sucesso, perguntei: Amorzinho, você viu o controle-remoto? "Sim, está comigo!" Podes me alcançá-lo? "Não, ele vai ficar comigo!" Como assim? "Vai ficar comigo e pronto! De hoje em diante será assim!" Não sei descrever que tipo de sensação apossou-se de mim. O fato é que peguei a pinça no estojo de cosméticos dela e fui ao banheiro me auto-imolar: comecei a arrancar os pêlos das sobrancelhas sem me importar com as lágrimas que escorriam pelo canto-do-olho a cada pêlo arrancado. Onde já se viu? Aceito quase tudo, mas o controle-remoto não!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Devaneios na praça.


Levo-me para passear pelas descuidadas praças de uma Porto Alegre há muito carente da devida atenção por parte de quem, em seus versos, a acha demais, mas no dia-a-dia acha demais cuidá-las. Aproximo-me do banco de madeira de uma dessas bucólicas praças; seu lustre impõe-me respeito por tantos que por ali largaram seus cansados corpos ou deixaram-se atirar preguiçosamente e por ele foram recebidos sem distinção. Suas marcas ali estão, e que se revelam no brilho coletivamente construído em dias de sol a pino, ou nublados, ou frios, ou torrenciais, ou alegres, ou nem tanto. Sem mais deparo-me com a idéia de que todos contém um banco de praça em algum momento de sua vida, mas sobretudo por ele são contidos, e dele passam a fazer parte enquanto existir. Falo do banco pois nós até podemos perecer antes, mas nele continuaremos registrados.

Ajeito-me como posso, acompanhado pelas sombras das árvores que somam-se a tantas outras sombras, e ponho-me a observar a coleção de histórias que desfilam frenéticamente para lá e para cá. E como é intrincado esse conjunto tão disperso de roteiros: uns próximos de seu desfecho e de braços dados com a naturalidade de sua finitude, outros recém na introdução, outros tantos a meio-caminho, outros sequer suspeitos do final tão inesperado quanto precoce que os espera e outros e mais outros e mais outros e mais outros. A verdadeira história da vida passa por ali, tão previsível e tão surpreendente. Em nada se parecem com os enredos automatizados pelo natural ciclo da vida das testemunhas parceiras de meus devaneios. Destas não há surpresas: das sementes vem a planta, da planta as flores, das flores os frutos, dos frutos as sementes. Algumas são ainda mais apressadas e simplesmente pulam ora a etapa dos frutos, ora a das flores.

Mas também em seu reino é possível encontrar severas contradições, a que o marxismo diria de classe. O eucalipto - fazendo uma analogia um tanto que forçada com a explicação marxista - talvez seja a árvore mais próxima do que Karl Marx chamaria por capitalista - o detentor do capital - cuja lógica de existência estaria em conflito permanente com as probabilidades de existência das demais espécies. Entretanto com uma grande diferença entre ele e o capitalista que conhecemos: o eucalipto precinde da existência do seu opositor. Já o capitalista se serve dele. Para este, seu opositor na escala do conflito de interesses - o proletariado - quanto maior, mais aumenta suas possibilidades de extrair a mais-valia. Além do que o capitalista utiliza-se de sutis formas para esconder a oposição. Vez ou outra chega mesmo a eufemísticamente chamar seu rival de colaborador, até mesmo oferecendo-lhes (ou sendo forçado a) pequenas vantagens para mantê-lo sob seu controle. Já o eucalipto é curto e grosso: basta-se e deixa sua auto-suficiência bem clara ao aniquilar tudo a sua volta. Portanto ele e as demais espécies arbóreas possuem interesses intrínsecamente tão conflitantes ao ponto de haver a necessidade de seu controle efetivo pois, caso contrário, o antagonismo pode chegar a um impasse suficientemente grande que a destruição do ecossistema é inexorável (exatamente como Marx previu em sua análise do capitalismo).

Por tudo isso raras são as praças povoadas por eucaliptos. E quando as encontramos, nada mais sem graça: os troncos são sempre lisos e uniformemente arredondados; tediosamemente iguais. Simplesmente não há as surpresas dos galhos retorcidos que a presença de diferentes espécies nos brindam ao buscar permanentemente aquela fiapo de sol que escorre entre folhas disformes. Uma maravilha.

Retorno de meu devaneio com uma certeza: o único lugar para os eucaliptos nas praças deveria ser o de fornecer a matéria-prima para os bancos. Apenas isso.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sobre o (mal) estar entre o real e o imaginário


Sempre há quem guarde um poema despudoradamente decorado, filho único como carta-na-manga para impressionar quem não vale a pena - tão falso como papel celofane em tv em preto-e-branco - como falsas são as buscas por pessoas idealizadas, encharcadas por estereótipos disto ou daquilo, sem pé ou cabeça criadas por quem espera enquadrar alguém na alça de mira sem mais nem por quê, mesmo que motivo para tanto não haja; pouco interessando se a ponte entre o real e o imaginário seja de bambu podre ou de concreto armado. Nestas condições o que basta é a visão idealizada do que se quer que seja, mesmo não sendo.
Mas faça-se o parto assim mesmo, sem garantias ou fiadores, como lenhadores inábeis torcendo para que o tronco adormeça para o lado de lá, ainda que desprezando as probabilidades de não sair ileso ao ultrapassar cruzamentos com o sinal vermelho.
Então, que se veja o invisível; que se toque o intangível; que se crie a receita para o drible inesperado - daqueles que deixam o adversário refém da tristeza de sua torcida por ele abatida até o próximo clássico - mesmo que as chances de dar certo sejam poucas, ou nulas.
Talvez seja esta mesmo a graça que restou: sentar em bancos molhados, na praça, enquanto a procissão segue seu rumo, misturando algo em quê acreditar mesmo que a razão diga o contrário.
E assim, espremido pela necessidade de descobrir a estratégia adeqüada para evitar a aproximação insidiosa do mal-estar que toma conta da humanidade que, ora exposta à ausência de utopias ficou órfã de sonhos - que por mais fantasiosos que fossem produziam o elixir da longevidade - sobrou o indivíduo, perdido entre ontem e hoje e sem noção do que é, mas esperando ansiosamente encontrar o que poderia ser.
Mas tudo vai terminar bem, mesmo que não saibamos exatamente o que isto signifique.

sábado, 1 de agosto de 2009

Criminalização do ciberespaço ? Sim, já temos um imbecil disposto a apresentar um projeto assim.

Hoje vou falar de coisa séria. Vou tentar não ser longo. Certamente não vou esgotar o assunto. Nem é o objetivo. É coisa prá várias rodas de chimarrão, prá quem gosta. Não é bem meu caso. Então só vou tratar da questão da criminalização de downloads. Mas o projeto é mais amplo.

O dia em que disserem que supostamente fiz alguma coisa vou ficar preocupado. Só pode ser merda. Mas não vou falar de mim e sim do senador Eduardo Azeredo, do PSDB/MG, e seu projeto. Não sem antes de relembrar que supostamente o senador teria sido o gênio criador do método mensalão. Não dá prá não mencionar feitos relevantes. Biografia é tudo.

Feita a lembrança, o projeto de que falei, além de outros aspectos trata da criminalização de downloads. Nem preciso me estender muito. Grosso modo, o ato de baixar músicas, filmes e afins passaria a ser tipificado no Código Penal. É isso mesmo: cana ou coisa parecida. Cara, a solução mais fácil para um imbecil quando quer resolver algum problema é proibir. Mas como disse, já temos um. Nessas horas esquece-se que democracia é discussão, debate amplo, decisões partilhadas, exame de todas as implicações, de dar voz à todas as partes, possibilidades, etc. etc. etc. Mas para esse tipinho, democracia é detalhe.
Bueno, mas vou me ocupar só de algumas das implicações sobre o objeto do desejo prestes a ser tornar também proibido.
Todo o mundo sabe que a internet se tornou - além de outras milhares de facetas e possibilidades - uma imensa teia de partilha solidária de produções culturais. Isso significa que há um depósito virtual com boa parte da cultura produzida no planeta e que está ao alcance de quem tem acesso a um computador, o que está aumentando cada vez mais. Os benefícios desse processo de troca é absurdamente enriquecedor - não no sentido que as corporações querem, claro. Ao criminalizar, vão trancar esse intercâmbio enriquecedor.


Não é difícil concluir que o que mais tem pesado no projeto é a história dos filmes, seriados e das músicas. As indústrias fonográfica e cinematográfica há horas estão pressionando para que os downloads sejam criminalizados. E a questão toda é grana. Só isso. Para a cultura em si os caras não tão dando a mínima. E o raciocínio é aquele de que tudo o que é produzido é propriedade privada e deve se pagar para tê-lo (cultura e sabonete passam a ser a mesma coisa). Mesmo que tenhamos que pagar todos os custos extras à produção dos filmes e cd´s. Coisas do tipo publicidade, clipes, cachês absurdos, jabás, etc. E jabá é um negócio sério - um dia ainda teremos alguém que se preocupe em criminalizá-lo. O jabá é praticamente a compra de espaços junto aos meios de comunicação social - que são concessões públicas - nos quais alguns poucos artistas são expostos a exaustão enquanto a imensa maioria fica relegada quase ao anonimato. E nós financiando. Aí vem a internet e democratiza isso. Maravilha.
Vou falar sobre um diamante achado na internet. Outro dia por acaso achei um disco que jamais teria acesso. Isso porque a gravadora onde o disco foi prensado nos anos setenta, foi atingida por uma inundação e restou algo perto de trezentas cópias. E as fitas originais se perderam. O disco em questão é Peabiru, de Lula Cortês e Zé Ramalho. Uma jóia rara da psicodelia nacional. Não fosse a generosidade de alguém que o postou na net, provavelmente cairia no esquecimento. Aliás, se alguém já viu esse disco numa loja ou ouviu em alguma rádio, saio pelado correndo pela Rua da Praia gritando "Sarney é inocente, Sarney é inocente". É sério. Acham que o Lula Cortês e o Zé Ramalho ficaram brabos com seu disco na internet ?
Poderia falar um milhão de exemplos de coisas que se perderam e a net recuperou e viabilizou o acesso, assim como coisas legais que não tem apelo comercial e, portanto, um número muito menor de pessoas as teria acessado caso os downloadas fossem proibidos. Praticamente o mesmo raciocínio vale para os filmes. Se tu quiser ver filme do Kusturica, do Bergman, um filme afegão ou coreano, etc., vai fazer como ? Esperar que um dia algum cinema "mais cabeção" passe ? Ou pagar uma fortuna e importar (coisa bem democrática) ?
Na moral o que está em disputa é o acesso à diversidade cultural produzida nos quatro cantos do planeta ou a grana para uns poucos. Simples assim. E os caras querem que tudo seja pago. Ou melhor, que tudo o que eles acham que tenha potencial para ser vendido - e os critérios pelo que se tem visto são horripilantes. O resto que fique anônimo. Na boa, um senador apresentar um projeto desses me parece mais imoral, mais asqueroso do que qualquer dessas histórias de corrupção no Senado. Talvez tenha rolado algum. Supostamente, é claro. Supostamente.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Se for prá mim, não tô.


Se for prá mim, não tô.
Estou falando de telefone. Como está perigoso falar ao telefone.
Viram a última do clã Sarney ? Uma meia dúzia de ligações foram o suficiente para flagrar o vovozinho marimbondo tentando arrumar um empreguinho pro namorado da netinha. E olhe o rebuliço que tá dando. O que é isso ? Vê se pode: um avô preocupar-se com o futuro da filhinha de seu filhinho é crime ? Claro que tô brincando. A trampinha envolve dinheiro público, e este é sagrado. Pelo menos deveria. Além disso, ficamos sabendo da existência de mais um filho do Sarney e da netinha do vovozão. Ou seja, a família não pára de aumentar e daqui a pouco o Maranhão vai ficar pequeno. Que medo. Vou até me desviar um pouco do assunto telefone. Depois refaço a ligação.

Olha só, as vezes as pessoas falam que pobre põe muito filho no mundo e isso só faz aumentar a pobreza. Vou pegar a coisa pelo outro lado. Fodão mesmo são os velhos (e novos) coronéis da política nacional que tem uma prole extremamente numerosa. E o pior, normalmente seguem a profissão dos precursores e se metem na política. Ocorre que os mais velhos vão criando toda uma rede de influências que vai sendo repassada aos sucessores, que só farão aumentá-la. Então as famílias vão montando uma teia de poder que, normalmente, não faz distinção entre as esferas pública e privada. Aliás essa é uma característica bastante comum em nossas elites. Mas cuidado, não são só os políticos que misturam a esfera em que deveria atuar - a pública - com a que deveriam ficar de fora - a privada. O caminho inverso também é freqüente. Pessoas da esfera privada que imiscuem-se na esfera pública construindo também suas teias e suas correspondentes relações de poder.
Mas voltando aos políticos, olha o caso do ACM. Com exceção dos baianos, todos o odiavam. Mas ele já tinha seu sucessor: o filho Luís Eduardo -cujo destino político foi abortado pela morte precoce. Mas restou o malvadezinha neto, se é que não existem outros. O Sarney estamos todos vendo. A cada enxadada salta um Sarney. Impressionante. E cada um dando uma locupletadinha amiga. Cada um a seu modo, afinal de contas há que se ter personalidade. E quanto mais familiares na política. mais poder político é auferido pela família. Bom, mas o que não podemos esquecer é que concentração de poder político redunda em maior poder econômico, que aumenta o poder político e, assim, o círculo se auto-alimenta. E sabemos todos, só o que essa gente faz é distribuir riqueza entre os seus. O povo ? Tadinho do povo. Então, ou fazemos controle de natalidade no seio de nossas oligarquias políticas ou que não se vote em seus sucessores. Claro que tô brincando em relação ao controle de natalidade deles, mas não à segunda parte. Preconceito ? Não. Conceito prévio. É diferente. E não adianta ficar de cara só com a família Sarney. Prestem atenção e vão descobrir uma quantidade enorme de famílias tradicionais existentes na política brasileira: os Maia, os Alves, os Mestrinho, os Sarney, os Amim, os Germano, os Barbalho e tantas outras que não lembro agora. Ah, tem um detalhezinho: repararam que todos os citados pertencem a partidos conservadores, para não dizer reacionários ? Coincidência ? Mas alguns dirão que o Lula está de braços dados com vários deles, o que é verdade. Mas trata-se do que estava dizendo. A influência dessa gente é muito maior do que o saudável a qualquer sociedade. Sem querer inocentar o Lula, que tá passando as medidas neste caso.
Mas refazendo a ligação - belo duplo sentido hehehe - telefone virou mesmo um artefato tão perigoso que na CPI do Detran aqui do Rio Grande do Sul grampearam uma série de telefones. Nem todos tinham a noção do perigo que corriam e deitavam falação. A exceção foi um carinha que tinha a exata noção do risco. Quando seu interlocutor falou detalhadamente numa suposta distribuição de dinheirinhos, o esperto do outro lado da linha foi bastante claro: "como assim ? Por telefone eu não entendo isso; por telefone eu não entendo..." Vejam só, a capacidade de compreensão dele estava ligada diretamente ao meio pelo qual se comunicava. Já outros ficavam eufóricos, largadões, bem a vontade: "e aí, como vai essa liderança ?" e patati patatá.
Bom, eu não falo mais ao telefone. Imagina se alguém intercepta uma ligação onde mando beijinhos prá minha querida sogra ? Como é que eu fico ? Como é que eu fico ? Vai direto pro Jornal Nacional, com legenda e tudo. Então, nem ligue. Se for prá mim, não tô...mande carta.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Assim caminha a humanidade

Perdoem-me a aspereza de certos temas que por vêzes me vejo obrigado a tratar. O que ocorreu me foi relatado por um colega de trabalho e que é síndico nas horas vagas. Logo em sua chegada no local deparou-se com uma das cinco únicas viaturas da Brigada Militar que cobrem a zona norte de Porto Alegre e que fora requisitada. Um dos policiais, vendo-o chegar abordou-o perguntando o que acontecera. Ele identificou-se e disse-lhe que igualmente não sabia. Nesse ínterim, no terceiro andar havia uma senhora debruçada no parapeito da sacada gritando quase que histéricamente. Subiram todos e chegaram ao local. Não, não era nada digno de uma ocorrência policial.
Tratava-se de um desentendimento entre um casal de idosos e sua filha de um lado e, de outro uma vizinha que há pouco para lá se mudara. Eis a questão de suma importância: aquela senhora que gritava histéricamente e seu marido - que, como sua filha, também estava bastante exaltado - armaram o maior banzé porque o marido da vizinha - que é uma espécie de representante do jornal zero hora e, como tal, carrega diariamente uma imensa sacola com os jornais - havia descido os corredores do edifício e no trajeto derrubara um pequeno vaso que estava na área comum do edifício. E o "preciosíssimo" vaso era de propriedade da senhora. Foi por esse crime hediondo que a senhora idosa achou-se no direito de chamar a Brigada Militar privando os demais cidadãos da possibilidade de usufruir da proteção de uma viatura a mais. Mas o pior ainda não chegou. Pasmem, o rapaz que carrega a imensa sacola em sua labuta diária tem apenas pequenos pedaços dos dois braços e duas mãozinhas quase que coladas aos ombros. Daí sua dificuldade em manobrar a sacola ao descer as escadas do edifício. E assim cometeu o terrível crime.
O que se pode dizer de um casal de idosos que tem esses valores ? Se repassaram essa ausência de solidariedade; essa incapacidade de compreensão aos seus filhos e netos, podemos dizer que prestaram um bom serviço a humanidade ? Eu mesmo respondo: não, absolutamente não. Seus cabelos brancos talvez só representem a tendência que algumas pessoas tem de piorarem cada vez mais. Pois é, assim caminha a humanidade...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Até tu Beethoven.

O glorioso presidente do Senado aprontou mais uma. Supostamente, é claro. Aliás, já vou começar abrindo um parênteses. Supostamente é a palavra mais usada ultimamente no jornalismo. Virou uma espécie de vacina contra processos. Então é supostamente prá lá, supostamente prá cá e tá todo mundo imunizado. Não, não sou jornalista, mas segundo o Gilmar Mendes - aquele que supostamente hehehe tem uns jaguncinhos lá pelas bandas do Mato Grosso - poderia ser. Então vou supor também pois não sou tão bobo quanto pareço.

Voltando à vaca fria e louca...supostamente uma (ou mais) empresa(s)-gasparzinho de Sarney teria desviado meio milhãozinho utilizando a Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. Mas como, que papo é esse de empresa-fantasma ? Brasileiro não tem memória mesmo. Esqueceram que a Academia Brasileira de Letras imortalizou o nosso marimbondo de fogo ? Imortal não vira fantasma, pô. E era um projetinho de curtura. Tão pegando pesado demais com o sarneizinho. Sarney, queridão, aceita um conselho: dá um tempo nessa chateação de Senado. Pega um pijaminha e um chinelinho confortável e vai passar uns dias na casa da Roseana. Lá ninguém vai te encher o saco. Pega o controle-remoto, senta na cadeirinha do papai e vai assistir os teus canais de televisão - sim, o cara é coisa fina, tem seus próprios canais de televisão. Mas antes manda os caras tirarem o jornalismo do ar e põe o desenho do pica-pau no lugar. Ninguém vai notar, além do que, como homem que se preocupa com a cultura, certamente o resto da programação deve ser bem edificante. Te abanca e, qualquer coisa que precisar é só chamar o mordominho da filha. Não, não te preocupa em chatear o Jarbas. Ele recebe um bom salário prá isso. Se tem coisa que a família Sarney se preocupa é em remunerar bem seus funcionários. Muito justo.

Aqui pelos pampas caiu mais um Secretário da Transparência. Motivo: trabalho com resultado invisível. Que coisa. Como se vê, o problema é o que não é visto. Sempre lembrando que a crise no Senado da relespública começou com aqueles atos-secretos, isto é, aquilo que ninguém via. No fundo, no fundo acho que nossos políticos se preocupam em não aborrecer o povo. É sério. E nós sempre reclamando...Eta povinho ingrato. Por isso hoje deixei o noticiário jornalístico prá lá. Esses caras vivem envenenando o povo e depois a gente fica reclamando dos políticos. Chega de baixo astral. E hoje é sexta-feira. Então sintonizei a FM Cultura e fui pro trabalho escutando uma musiquinha clássica prá espairecer e começar o dia em alto-astral. Como se sabe, música clássica é tão longa quanto o nome que a identifica. Mas a música era uma maravilha, uma obra prima de Beethoven. Não, não me pergunte o nome da peça que tocou. Só lembro do movimento. Mas o nome completo era mais ou menos assim: sinfonia não sei o quê, Opus número tal, em ré menor patati patatá, movimento... movimento...alegro mas nem tanto. Isso mesmo. Alegro mas nem tanto... Como dizia o príncipe FH: "assim não dá; assim não pode ser".

Até tu Beethoven, até tu Beethoven...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Anos 80 I - Cuidado com eles...

Na boa e velha Ipanema FM toca boys don't cry do Cure. Como legítimo representante dos anos 80, de quem viveu alucinada e intensamente aquele período, bate uma certa nostalgiazinha. Sei lá, talvez seja o climão meio soturno do nosso inverno gaúcho... Não, não vou dizer que aquela época era melhor. Qualquer lapso de tempo em nossas vidas tem seus pontos positivos e outros nem tanto. Bueno, mas foi um período em que ia a qualquer show que fosse. Dá prá dizer isso com tranqüilidade pois naquela época não havia pagode mauricinho, axé, sertanejo picareta e outras coisinhas que hoje tem por aí. Mas tudo bem, deixa eles prá lá. Quem gosta que ouça. No meu caso era rock, rock, rock e um pouquinho de mpb da boa prá descansar um pouco. O Araújo Viana era o templo predileto. Nada era mais astral do que um show no Araújo, que na época era descoberto.

Bem no início da década teve um show muitíssimo peculiar. A ditadura militar agonizava e havia sempre algo meio suspeito no ar. Cuidado que eles vão fechar de novo. Muito cuidado, o bicho-papão tá dormindo mas pode acordar. A paranóia fazia parte do cotidiano. Nesse ambiente fui assistir um show num sábado frio e com aquela garoinha bacana que, contra as luzes em meio às árvores da Redenção, dava um climão bacanérrimo. Mas, deixando claro, os shows eram partes integrantes da noite mas, nem de longe eram o início ou o fim da noite. A preparação para ver o show era tão legal quanto o próprio. E o pós-show era melhor ainda. É, naquela época a Redenção era território livre à noite. Violência zero. Sem falar nos bares da Osvaldo. O Cacimba e o Ocidente eram os habitats ideais para toda e qualquer tribo. Era punk, dark, rocker, hippie, etc. prá todo o lado.

Bom, mas voltado ao show, devia ter umas quinze ou vinte pessoas. E eu lá, no maior astral. Firmão, jaquetinha de brim forrada (e surrada) e preparadíssimo prá ver o show. Não tenho a menor lembrança de que banda era. Nunca mais vi em lugar algum. O show começou e logo começaram os problemas de som. Os equipamentos funcionavam um pouco mas volta e meia pifavam de novo. E o guitarrista por momentos parecia tocar um autêntico air guitar. Lá elas tantas, após várias interrupções os caras se irritaram e o vocalista berrou: "estão nos boicotanto, estão nos boicotando. A ditadura não acabou. Cuidado com eles, cuidado com eles." É , os anos oitenta foram meio assim: um pé na democracia, outro na ditadura. E dê-lhe paranóia. Cuidado com eles, cuidado com eles.

Cena improvável.


A manhã estava tão úmida que eu parecia mergulhar na atmosfera. Uma chuvinha rala e deitada molhava a calça até os joelhos. Como de costume desci do lotação - algo que só portoalegrense conhece - e me dirigia ao trabalho manobrando com imensa dificuldade o heróico morcegão. O vento minuano vinha do rio guaíba, driblava o famigerado muro da Mauá e avançava península adentro. Os prédios, enfileirados anarquicamente a poucos metros do rio, formavam canais por onde o vento dançava violentamente como numa roda punk. Pois nesse ambiente inóspito, abaixo de uma frondosa árvore localizada no lado oposto do Mercado Público Municipal, em pleno Largo Glênio Peres, incrivelmente um músico empunhava seu...seu...violino. Isto mesmo, um violino em plena manhã chuvosa no centro de Porto Alegre. E o cara tascava adaptações de músicas populares amplificadas pela sua aparelhagem um tanto quanto tosca. Convenhamos, independentemente da questão do gosto musical, a cena é que importava. E que cena...que cena...

terça-feira, 7 de julho de 2009

Alguém vai chorar

As cortinas dançam suavemente enquanto gotas de orvalho
refletem o lamento de um blues arrastado.
Pela janela entreaberta ouve-se o silêncio vindo de fora.
Imagens trafegam escondidas para além do real
enquanto a noite prossegue ao ritmo da rotação do planeta.
Sirenes interrompem sem pedir autorização.
Será a polícia com licença para matar
ou ambulâncias salvadoras ?
A aflição está em algum lugar,
para o bem ou para o mal.
Melhor não olhar.

Tiros...

Alguém vai chorar.