quinta-feira, 9 de julho de 2009

Anos 80 I - Cuidado com eles...

Na boa e velha Ipanema FM toca boys don't cry do Cure. Como legítimo representante dos anos 80, de quem viveu alucinada e intensamente aquele período, bate uma certa nostalgiazinha. Sei lá, talvez seja o climão meio soturno do nosso inverno gaúcho... Não, não vou dizer que aquela época era melhor. Qualquer lapso de tempo em nossas vidas tem seus pontos positivos e outros nem tanto. Bueno, mas foi um período em que ia a qualquer show que fosse. Dá prá dizer isso com tranqüilidade pois naquela época não havia pagode mauricinho, axé, sertanejo picareta e outras coisinhas que hoje tem por aí. Mas tudo bem, deixa eles prá lá. Quem gosta que ouça. No meu caso era rock, rock, rock e um pouquinho de mpb da boa prá descansar um pouco. O Araújo Viana era o templo predileto. Nada era mais astral do que um show no Araújo, que na época era descoberto.

Bem no início da década teve um show muitíssimo peculiar. A ditadura militar agonizava e havia sempre algo meio suspeito no ar. Cuidado que eles vão fechar de novo. Muito cuidado, o bicho-papão tá dormindo mas pode acordar. A paranóia fazia parte do cotidiano. Nesse ambiente fui assistir um show num sábado frio e com aquela garoinha bacana que, contra as luzes em meio às árvores da Redenção, dava um climão bacanérrimo. Mas, deixando claro, os shows eram partes integrantes da noite mas, nem de longe eram o início ou o fim da noite. A preparação para ver o show era tão legal quanto o próprio. E o pós-show era melhor ainda. É, naquela época a Redenção era território livre à noite. Violência zero. Sem falar nos bares da Osvaldo. O Cacimba e o Ocidente eram os habitats ideais para toda e qualquer tribo. Era punk, dark, rocker, hippie, etc. prá todo o lado.

Bom, mas voltado ao show, devia ter umas quinze ou vinte pessoas. E eu lá, no maior astral. Firmão, jaquetinha de brim forrada (e surrada) e preparadíssimo prá ver o show. Não tenho a menor lembrança de que banda era. Nunca mais vi em lugar algum. O show começou e logo começaram os problemas de som. Os equipamentos funcionavam um pouco mas volta e meia pifavam de novo. E o guitarrista por momentos parecia tocar um autêntico air guitar. Lá elas tantas, após várias interrupções os caras se irritaram e o vocalista berrou: "estão nos boicotanto, estão nos boicotando. A ditadura não acabou. Cuidado com eles, cuidado com eles." É , os anos oitenta foram meio assim: um pé na democracia, outro na ditadura. E dê-lhe paranóia. Cuidado com eles, cuidado com eles.

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